segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Do psicanalista Jorge Forbes
Jorge Forbes
Rádio Eldorado
Comentário que foi ao ar em 31/12/2003
Não adianta você querer dizer que nada tem a ver com isso, que é só uma data no calendário, que o Ano-novo não muda nada, que todo dia é igual ao outro, que você está acima ou indiferente a essas convenções sócio-comerciais, que o Ano-novo é patrocinado pelas agências de turismo, como o Natal seria invenção do clube dos lojistas. A sociedade vive de pactos e convenções, que podem ser discutidos mas não desprezados. Do contrário, seria como dar um tiro no próprio pé. Não se caminha sem acordos de convivência. E alguns, como o Ano-novo, dada sua extensão universal, têm uma força simbólica real, que não permite indiferença. Até aquele mal-humorado que prefere ir sozinho à última sessão de cinema do dia 31 de dezembro, e que antes da meia-noite já está dormindo, não escapa ao Ano-novo. Não querer ver a entrada do ano é uma reação negativa, mas é uma reação.
E todos os anos se renovam as promessas, mesmo que sejam as mesmas das últimas décadas – sempre anunciadas, nunca cumpridas – sem nenhuma vergonha do pecado. O Ano-novo lava a alma do passado e estabelece um “daqui para a frente”.
E a psicanálise, tem algo a dizer sobre as boas intenções do Ano-novo? Sim, tem. Ao menos em dois aspectos. “Você quer o que você deseja?“, seria o primeiro; o inexorável da surpresa, o segundo. Muitas das promessas ficam só nas promessas, porque é bastante comum não se querer o que se deseja. Esse aspecto até auxilia os analistas no diagnóstico. Obsessivos seriam os que só querem o que não desejam, pois assim não arriscam perder o que lhes é mais precioso, mantendo-o escondido a sete chaves; e histéricas aquelas que, eternamente insatisfeitas com o que obtêm, desejam sempre outra coisa. Querer o que se deseja implica o risco da aposta – toda decisão é arriscada – e a coragem de expor sua preferência, mesmo sabendo que toda carta de amor tende ao ridículo, como lembra Fernando Pessoa.
Então, no Ano-novo, uma promessa analítica, se existisse, seria suportar querer o que se deseja e não temer a surpresa do próprio Ano-novo. O momento mesmo do réveillon é o melhor exemplo do imprevisível: embora todo mundo saiba quando ele vai nascer, embora (tal qual obstetras do futuro) acompanhemos a contagem regressiva do nascimento em voz alta, não conseguimos evitar a curiosidade entusiasmada de ver sua cara em meio à sinfonia dos fogos de artifício e das bolhas de champanhe.
E todo Ano-novo é multifacetado, tem uma cara para cada um, é o que o difere do Ano-velho, com suas conhecidas rugas e rusgas.
Tanto melhor, amigo, se o Ano-novo o encontrar feliz.
sábado, 29 de dezembro de 2007
ANTONIO CICERO
O relativismo e a modernidade
A proposição de que toda verdade é relativa, tão ouvida hoje em dia, é insustentável
RECENTEMENTE, COMO se sabe, as ideologias "pós-modernas" abraçaram o relativismo com a mesma inconseqüência com que atacavam a modernidade. Parece-me claro que muitas das teses de pensadores extremamente influentes, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Richard Rorty e seus discípulos, podem ser consideradas relativistas, mesmo se eles próprios, como é natural, jamais tenham querido assim se rotular.
É mais comum um filósofo relativizar, de algum modo, a verdade, do que confessar-se relativista. Nietzsche, um dos mais citados hoje em dia, é claramente relativista (embora seja mais freqüentemente classificado de "perspectivista").
O fato é que é comum ouvir-se hoje em dia que "toda verdade é relativa". Essa proposição, porém, é insustentável. Por quê? Porque incorre no que os lógicos chamam de autocontradição performativa. Essa se manifesta no seguinte dilema: se a própria proposição "toda verdade é relativa" for relativa, segue-se que nem toda verdade é relativa; por outro lado, se a proposição "toda verdade é relativa" não for relativa, segue-se, igualmente, que nem toda verdade é relativa. Desse modo, o relativismo universal se desmente ao ser afirmado.
Mas o relativismo é inviável também do ponto de vista prático ou político. Embora ele seja muitas vezes defendido a partir de uma atitude pluralista, em que o relativista, negando-se a tomar qualquer verdade como absoluta, aceita que haja verdades diferentes daquelas em que acredita, ele, com isso, acaba por minar a sua própria posição.
É que, como diz Platão sobre o relativista Protágoras: "ele é vulnerável no sentido de que às opiniões dos outros dá valor, enquanto que esses não reconhecem nenhuma verdade às palavras dele". Assim, enquanto o relativista aceita, por princípio, que sejam relativamente verdadeiras as crenças do anti-relativista ou absolutista (seja ele, por exemplo, um terrorista jihadista), esse não reconhece absolutamente nenhuma verdade nas teses -que, para ele, não passam de manifestações de fraqueza, decadência etc- do relativista.
Pior ainda: o relativismo é capaz de se transformar no seu oposto. "Da equivalência de todas as ideologias, todas igualmente ficções", afirmava Mussolini, sob a influência de Nietzsche, "o relativismo moderno deduz que cada qual tem o direito de criar-se a sua própria e impô-la com toda a energia de que é capaz".
E pergunto: qual foi a ideologia que Mussolini criou e impôs com toda a energia de que foi capaz? O fascismo, para o qual, como afirmou em "A Doutrina do Fascismo", "o Estado é um absoluto". Eis como é simples a transformação do relativismo em absolutismo.
A modernidade filosófica mesma não é nem jamais foi relativista, pelo menos nesse sentido vulgar. É verdade que, desde o princípio, Descartes e, mesmo antes dele, Montaigne, por exemplo, puseram em questão todos os pretensos conhecimentos dados ou positivos -o que, de certo modo, equivale a relativizá-los. Entretanto, os pretensos conhecimentos positivos são relativizados por esses pensadores a partir da crítica efetuada pela razão: a partir, portanto, da razão crítica.
Assim, ao mesmo tempo em que, por um lado, todos os pretensos conhecimentos positivos são reconhecidos como relativos, por outro lado, a razão (enquanto faculdade de criticar) é reconhecida, desde o princípio da modernidade, como um absoluto epistemológico. Não que ela não possa criticar a si própria: ao contrário, nunca é demais lembrar que, na "Crítica da Razão Pura", de Kant, a razão é tanto sujeito quanto objeto da crítica. Entretanto, justamente ao criticar e questionar a si própria, a razão não pode deixar de se afirmar.
Ora, o reconhecimento de que a razão crítica -ou negativa- é epistemologicamente absoluta equivale ao reconhecimento de que nenhum pretenso conhecimento positivo é absoluto: ou, em outras palavras, de que todo pretenso conhecimento positivo é relativo.
Chamo o reconhecimento moderno dessa clivagem entre a razão negativa e absoluta, por um lado, e os conhecimentos positivos e relativos, por outro, de "apócrise".
Desse modo, a apócrise (1) escapa da autocontradição performativa em que incorre o relativismo vulgar; (2) não incorre em etnocentrismo (pois seria o cúmulo do etnocentrismo considerar a razão crítica como "ocidental"); (3) não deixa de afirmar o caráter absoluto da razão crítica; e (4) não é suscetível de ser transformada no seu oposto, tal como ocorreu com o relativismo vulgar, nas mãos de Mussolini.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Me defina, me dê um sentdo, fale de mim.
Durante alguns anos estudei astrologia com afinco, chegando mesmo a interpretar mapas, sinastrias e revoluções. Era procurado por amigos e por amigos de amigos, todos interessados em algo que eu nunca cheguei a entender bem. Não era exatamente um desejo de conhecer o futuro por antecipação, apesar de pairar ao longo das entrevistas uma certa expectativa de informações proféticas. Também não eram nem o desejo de auto - conhecimento real, nem mesmo de um conselho a respeito de algum problema pontual os motores principais desse estranho desejo.
De minha parte havia sempre uma certa desconfiança em relação às generalizações e abstrações do discurso astrológico e também de seu avesso: previsões precisas e a meu ver um pouco "autoritárias"e por isso mesmo perigosas para os espíritos mais frágeis e susceptíveis.
Num determinado momento percebi que eu realmente não me interessava mesmo por nada daquilo e doei meus livros.
Hoje penso que o grande motivo que trazia até mim todas aquelas pessoas, seus números, nomes, lugares e hora de nascimento era uma necessidade narcísica de falar e ouvir falar de si mesmo. De ser o centro de algumas horas de conversa e de encontrar para si mesmo um sentido. Todos buscavam na minha interpretação dos astros uma espécie de discurso pacificador vindo de fora que resolvesse , mesmo que provisoriamente, o "quem sou eu" delas. "Sou egoísta ou altruísta, racional extrovertido ou emocional com pouca terra no mapa, qual o oposto que me completa?"
Sinceramente, não acredito em completude e muito menos em uma definição exata do "quem sou eu" que abarque todos os meus excessos e faltas e o que me fez desistir da astrologia foi menos a dúvida quanto à real influência dos astros na vida cotidiana , que uma postura ética.
Esse é um fragmanto de texto publicado no caderno MAIS ! Da Folha de São Paulo no dia 23 /12/2007
Astrologia do prazer
Já nos anos 1950, Barthes e Adorno consideravam as colunas de horóscopo em jornais como espelhos do mundo social
RICARDO MUSSE
ESPECIAL PARA A FOLHA
A astrologia persiste mesmo depois da conquista do espaço. Continua destacando a influência do ciclo lunar apesar de o homem já ter pisado na lua há décadas. Comenta a conjunção Saturno-Marte independentemente do fato de que este, no momento, recebe a visita de sondas que esquadrinham seu solo. Atribui vibrações poderosas a Plutão, ignorando que os astrônomos recentemente colocaram em questão sua condição de planeta.
Ela já havia sobrevivido à invenção do telescópio por Galileu, à teoria heliocêntrica de Copérnico e a todas as descobertas da ciência moderna, que a relegou a um domínio distinto da astronomia. Embora o significado do termo "astrologia" ainda não esteja completamente esvaziado, sobretudo se compreendido como a crença em que a configuração dos astros influencia a ação humana, as práticas sociais que ele designa se modificaram profundamente.
Mapas individuais
Adaptando-se à dessacralização do mundo, a astrologia sufocou sua dimensão mágica e ritualística, restringindo sua função de oráculo e limitando o seu alcance enquanto técnica de adivinhação.
Apesar dos esforços para situá-la ora como um ramo do esoterismo, ora sob o guarda-chuva de uma contraditória e indefinida "ciência hermética", ora como saber auxiliar da hermenêutica junguiana, seu lugar social, seu significado cultural e sua prática se pautam pela lógica da cultura de massa.
É verdade que se disseminou a exigência de mapas astrológicos individualizados (ampliando as consultas aos profissionais do gênero e o advento de sites na web que fornecem esses serviços), em consonância com as tendências do mercado que privilegiam o atendimento personalizado, ao invés do consumo estandardizado. Mas, de modo geral, a peça de resistência da astrologia continua sendo a coluna astrológica, item quase obrigatório nos jornais e revistas de grande circulação.
Pés de página
Obscurecida pelas imagens oníricas da propaganda, relegada ao pé da página em seções dedicadas ao comportamento ou à diversão, a coluna astrológica não possui mais a ressonância e o impacto que adquiriu no pós-guerra. Na década de 1950, simultaneamente e de forma independente, Theodor Adorno e Roland Barthes se debruçaram sobre seu significado.
Adorno publicou, em 1957, "As Estrelas Descem à Terra", divulgando pesquisa que desenvolveu de 1952 a 1953. Trata-se de uma análise ao mesmo tempo especulativa e empírica da coluna de astrologia do "Los Angeles Times". Nesse mesmo ano, Barthes reuniu em "Mitologias" uma série de artigos redigidos entre 1954 e 1956, dentre eles uma interpretação da coluna astrológica do semanário "Elle".
Há mais que uma coincidência temporal. Apesar das diferenças relativas aos métodos e, em parte, ao instrumental teórico, prevalecem as similitudes no que tange aos objetivos (a retomada da análise marxista da ideologia à luz da persistência do mito no mundo racionalizado), à delimitação geral do objeto (a indústria cultural) e até mesmo às conclusões da investigação. Ambos concebem a mitologia contemporânea como transmutação da ação histórica em natureza, da "eventualidade em eternidade". Concordam também que se trata de um sistema de comunicação, de um modo de significação, de uma forma, em suma. Destacam igualmente que o discurso astrológico conforma uma descrição realista das tendências psicológicas de um meio social preciso, o dos leitores.
Assim, a astrologia, em lugar de abrir brechas para o onírico (afinal, trata-se de uma prática assentada em relações ocultas), se constrói como um espelho do mundo social, como uma evidência realista das condições de vida da pequena burguesia, transmutada em norma universal.
"Semi-alienação"
As colunas astrológicas de hoje seguem o padrão e a estrutura desvendados por Adorno e Barthes. São ainda exemplares de uma "superstição de segunda mão" (Adorno) ou de uma "semi-alienação" (Barthes).
Práticas de reforço a uma adequação conformista ao curso do mundo, elas se assentam em paradoxos como a oscilação entre o ato de infundir angústia e o de satisfazer o narcisismo (Adorno) ou a afirmação de um puro determinismo e o fortalecimento da força de vontade (Barthes).
As modificações dizem respeito aos conteúdos impostos pelas novas exigências do trabalho (a demanda pela ação flexível) e consumo (com o hedonismo substituindo o ascetismo). Com isso, alteram-se os diagnósticos e os conselhos atinentes a cada uma das rubricas: vidas familiar, amorosa, financeira, profissional, social... O avanço desmesurado das técnicas de controle, a submissão do indivíduo às recomendações de "especialistas" permite que a astrologia sobreviva como uma prática de auto-racionalização, degradando o ideal de autoconhecimento em técnica de transformação interior e autocontrole.
Barthes considera que o modelo do discurso astrológico são as formas degradadas da literatura realista pequeno-burguesa. A analogia hoje seria mais simples, pois são quase indistinguíveis a coluna astrológica e a literatura de auto-ajuda.
RICARDO MUSSE é professor no departamento de sociologia da USP.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Conversas com Zizek
"Porque, para dizê-lo em termos um tanto patéticos, hoje vivemos uma época extremamente interessante, na qual uma das principais conseqüências de avanços como a biogenética, a clonagem, a inteligência artificial e outros é que, talvez pela primeira vez na história da humanidade, temos uma situação em que o que eram problemas filosóficos são agora problemas que dizem respeito a todos, que são amplamente discutidos pelo público."
Slavoj Zizek
Estou terminando de ler o livro que mais me interessou nos últimos tempos: "Arriscar o Impossível" de Zizek. Apesar do título meio auto - ajuda, o livro é extraordinário.
Zizek é um Lacaniano de mente veloz e língua afiada. Vale a pena ler
Filosofema
Mas também na lógica de Aristóteles é o próprio raciocínio demonstrativo.
Esse título me veio ao acaso, mensagem do inconsciente, e tão acertada!
Meus filosofemas: exercícios desabusados de um amor vagabundo à filosofia
